Apostas esportivas e jogos on-line ficam proibidos;
brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para plataformas somente em 2025.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta
sexta-feira (25), em São Paulo, uma Medida Provisória que proíbe a exploração
das chamadas bets em todo o território brasileiro.
A MP nº 1.394 proíbe a exploração, oferta, intermediação e
publicidade das apostas de quota fixa, tanto em meio físico quanto virtual. A
determinação alcança apostas esportivas e jogos on-line, inclusive plataformas
sediadas fora do Brasil que atendam pessoas localizadas no país.
Na prática, começa o processo para tirar do mercado uma
atividade que cresceu de forma impressionante nos últimos anos — e que também
passou a consumir uma parcela enorme do dinheiro das famílias brasileiras.
R$ 62,5 bilhões perdidos em apenas um ano
Um dado ajuda a dimensionar o tamanho do problema.
Levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda
(Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, apontou que
as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets somente em 2025.
No mesmo período, as plataformas movimentaram aproximadamente
R$ 351 bilhões em transferências via Pix. O estudo utilizou informações do
Banco Central e dados de pagamentos.
É dinheiro que saiu do orçamento das famílias.
Dinheiro que poderia estar no supermercado, na prestação da
casa, no remédio, na roupa das crianças ou ajudando a pagar contas.
E aqui está uma discussão que vai muito além do futebol:
quando o jogo começa a comprometer a renda familiar e provocar endividamento,
deixa de ser apenas diversão e passa a ser também um problema social e de saúde
pública.
Quem tem dinheiro nas plataformas precisa ficar atento
Segundo as regras anunciadas pelo governo, não serão
permitidos novos depósitos para apostas.
Quem possui saldo nas plataformas poderá solicitar a retirada
do dinheiro até as 23h59 do dia 5 de outubro.
A partir de 6 de outubro está previsto o bloqueio dos sites e
aplicativos. Para valores que não tenham sido retirados pelo próprio apostador,
foi anunciado um procedimento de devolução por meio das instituições
financeiras entre 9 e 14 de outubro.
Por isso, quem possui dinheiro depositado em alguma
plataforma deve acompanhar as orientações oficiais e guardar comprovantes de
saldo, depósitos e solicitações de saque.
Publicidade também entra na proibição
A decisão atinge outro setor que cresceu junto com as
apostas: a propaganda.
A própria MP estabelece a proibição da publicidade das
apostas de quota fixa. Isso terá impacto sobre campanhas digitais,
influenciadores, veículos de comunicação, publicidade e contratos envolvendo
marcas de casas de apostas.
O setor esportivo também deverá sentir diretamente os efeitos
da decisão, já que empresas de apostas se tornaram importantes patrocinadoras
do futebol brasileiro.
A história começou em 2018
As apostas de quota fixa foram autorizadas no Brasil pela Lei
nº 13.756, de 2018. Uma regulamentação mais ampla veio posteriormente com a Lei
nº 14.790, sancionada em dezembro de 2023.
A partir de janeiro de 2025 passou a funcionar o mercado
federal regulamentado, com empresas autorizadas e fiscalizadas pelo Ministério
da Fazenda. Até esta semana, a própria Secretaria de Prêmios e Apostas mantinha
relação oficial das empresas autorizadas a operar no país.
Agora, o governo muda o rumo dessa política.
A decisão ainda passa pelo Congresso
Há um detalhe fundamental.
Uma Medida Provisória produz efeitos jurídicos após sua
publicação, mas não significa que a discussão esteja encerrada.
O texto terá de ser analisado pelo Congresso Nacional. Se não
for aprovado dentro do prazo constitucional, poderá perder a validade.
Além disso, o setor de apostas deverá reagir política e
judicialmente à medida.
Entidades que representam as empresas argumentam que a
proibição rompe um marco regulatório criado pelo próprio Estado e afeta
companhias que investiram para obter autorização e operar dentro das regras
estabelecidas pelo governo.
Portanto, a partir de agora começa uma nova batalha: de um
lado, os argumentos relacionados ao endividamento, ao vício e à proteção das
famílias; do outro, empresas que operavam legalmente e questionam a mudança das
regras depois de investimentos e autorizações concedidas pelo próprio poder
público.
Enquanto essa disputa acontece, para o apostador comum a
orientação é simples: quem possui dinheiro em uma bet deve verificar o saldo,
acompanhar os prazos oficiais e providenciar o resgate dos valores.