Quedas
e oscilações de energia voltam a levantar questionamentos sobre a capacidade da
infraestrutura elétrica que atende o município; crescimento urbano,
agronegócio, empresas e novos hábitos de consumo aumentam a importância de
investimentos na rede.
As
constantes quedas e oscilações de energia elétrica registradas em Campina da
Lagoa têm provocado transtornos e levantado uma questão que vai além das
interrupções pontuais no fornecimento: a infraestrutura elétrica que atende o
município acompanhou o crescimento da cidade e o aumento da demanda por
energia?
A
pergunta é importante porque Campina da Lagoa de hoje é muito diferente daquela
de algumas décadas atrás.
O
município ganhou novas residências, empresas ampliaram suas atividades, o
agronegócio incorporou equipamentos e tecnologias, cooperativas aumentaram suas
estruturas e estabelecimentos públicos, como escolas e unidades de saúde,
passaram a depender cada vez mais de equipamentos elétricos e eletrônicos.
Dentro
das residências, a transformação também foi significativa.
Mesmo
com eletrodomésticos cada vez mais eficientes, atualmente existem muito mais
equipamentos ligados simultaneamente. Geladeiras, freezers, computadores,
televisores, chuveiros, fornos elétricos, máquinas de lavar, sistemas de
segurança e, principalmente durante os períodos de calor, aparelhos de
ar-condicionado fazem parte da realidade de milhares de famílias.
Isso
significa que eficiência energética não necessariamente representa redução da
demanda total de uma cidade.
Não
basta produzir energia
Para
entender o problema é necessário compreender, de maneira simples, como funciona
o sistema elétrico.
A
energia produzida nas usinas percorre linhas de transmissão até chegar às
subestações. Nessas instalações, a tensão é transformada para posteriormente
seguir pelas redes de distribuição até chegar às cidades, bairros, propriedades
rurais, empresas e residências.
Subestações,
transformadores, alimentadores, cabos e demais equipamentos possuem capacidades
determinadas.
Por
isso, conforme uma cidade cresce, sua infraestrutura elétrica também precisa
ser constantemente avaliada, modernizada e, quando necessário, ampliada.
A
própria Copel vem realizando investimentos dessa natureza no Paraná. Em julho
deste ano, a companhia informou ter investido mais de R$ 160 milhões em sete
projetos de modernização e reforço de subestações, destacando que um dos
objetivos é aumentar a capacidade operacional para que a infraestrutura
acompanhe o desenvolvimento econômico e o crescimento da demanda por energia.
Recentemente,
a empresa também inaugurou uma subestação de 34,5 kV em São Pedro do Paraná.
Segundo a Copel, a estrutura foi implantada justamente para ampliar a
capacidade de atendimento em uma região onde o consumo apresenta crescimento
significativo.
E
Campina da Lagoa?
É
justamente nesse ponto que surge uma série de perguntas.
- Qual
é a capacidade atualmente instalada na subestação que atende Campina da Lagoa?
- Qual
é o consumo registrado nos horários de maior demanda?
- Quanto
da capacidade disponível já está sendo utilizada?
- Existe
margem suficiente para atender o crescimento de residências, empresas,
cooperativas, propriedades rurais e novos empreendimentos?
- Quais
ampliações e modernizações foram realizadas nos últimos anos?
- E
quais investimentos estão previstos para os próximos cinco ou dez anos?
São
informações técnicas que podem ajudar a população a compreender se existe ou
não relação entre o crescimento da demanda e os problemas observados no
fornecimento.
Quedas
não significam necessariamente sobrecarga
É
importante destacar que não é possível afirmar, sem dados técnicos, que as
interrupções registradas em Campina da Lagoa sejam provocadas pela capacidade
da subestação ou por eventual sobrecarga do sistema.
Existem
diversas causas possíveis.
Temporais,
raios, árvores atingindo a rede, acidentes envolvendo postes, problemas em
isoladores, defeitos em equipamentos, manutenção, atuação dos sistemas de
proteção e ocorrências nas linhas responsáveis pelo abastecimento da região
também podem provocar interrupções.
Da
mesma forma, uma instalação ser antiga não significa necessariamente que esteja
tecnicamente ultrapassada.
Subestações
podem passar por substituição de transformadores, equipamentos de proteção,
automação e ampliações ao longo dos anos.
Por
isso, mais importante que saber apenas a idade da estrutura é conhecer sua
capacidade atual, a demanda registrada e a margem existente para crescimento.
Problema
já foi discutido em Campina da Lagoa
A
preocupação da população com a qualidade do fornecimento não é nova.
Em
março de 2025, uma audiência pública realizada na Casa da Cultura de Campina da
Lagoa discutiu especificamente as oscilações e quedas de energia no município.
Segundo
informações divulgadas pela Prefeitura na época, aproximadamente 45 pessoas
participaram do encontro, que contou também com representante da Copel. As
reclamações da população foram apresentadas e foram discutidas propostas para
melhorar a estabilidade do serviço.
Mais
de um ano depois, entretanto, relatos de interrupções e oscilações continuam
fazendo parte das reclamações de consumidores.
Discussão
chegou ao Senado
O
problema também não está restrito a Campina da Lagoa.
Em
maio deste ano, a Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal
realizou audiência pública para discutir as constantes quedas e oscilações no
fornecimento de energia elétrica no Paraná.
Participaram
representantes da Copel Distribuição, Agência Nacional de Energia Elétrica
(ANEEL), Federação da Agricultura do Paraná (FAEP), Federação das Indústrias do
Paraná (Fiep), Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) e Secretaria
Nacional do Consumidor.
Entre
os temas debatidos estavam a continuidade do serviço, fiscalização e os
impactos das interrupções para consumidores e atividades produtivas.
Qualidade
não significa apenas ter energia
Outro
ponto importante é que qualidade do fornecimento não pode ser analisada somente
verificando se existe ou não energia na tomada.
A
ANEEL acompanha indicadores relacionados à continuidade do serviço, entre eles
DEC e FEC.
De
maneira simplificada, esses indicadores ajudam a medir por quanto tempo e
quantas vezes os consumidores ficam sem energia.
A
regulação também estabelece parâmetros relacionados à qualidade da tensão
fornecida.
Isso
é especialmente importante diante dos relatos de consumidores sobre oscilações.
Quando
a tensão apresenta problemas, equipamentos eletrônicos, motores, sistemas de
refrigeração e máquinas podem ser afetados mesmo sem ocorrer uma interrupção
completa do fornecimento.
Energia
virou infraestrutura estratégica
Para
uma cidade que pretende crescer economicamente, energia elétrica deixou há
muito tempo de significar apenas iluminação.
Uma
cooperativa que amplia sua estrutura precisa de energia.
Uma
indústria que pretende se instalar no município precisa saber se existe
capacidade elétrica disponível.
Produtores
rurais utilizam motores, bombas, sistemas de refrigeração, aviários,
equipamentos de ordenha, secadores e diversas tecnologias dependentes de
eletricidade.
Supermercados
precisam manter câmaras frias.
Postos
de saúde dependem de equipamentos, computadores e refrigeração.
Escolas
utilizam tecnologia e climatização.
E
novos loteamentos representam centenas de novos consumidores conectados à rede.
Por
isso, planejamento energético também é planejamento de desenvolvimento
econômico.
A
pergunta que precisa ser respondida
O
debate sobre energia elétrica em Campina da Lagoa precisa avançar para além da
reclamação registrada depois de cada nova queda.
A
questão central é descobrir se o sistema possui estrutura suficiente para
atender a realidade atual e, principalmente, o crescimento esperado para os
próximos anos.
Para
isso, são necessários números.
·
Capacidade
instalada.
·
Pico
de demanda.
·
Margem
disponível.
·
Número
e duração das interrupções.
·
Principais
causas das ocorrências.
·
Investimentos
realizados.
·
E
planejamento para os próximos anos.
O
Portal O Vale considera importante que essas informações sejam apresentadas de
forma transparente à população e pretende encaminhar os questionamentos à
Copel.
A
resposta poderá esclarecer se as ocorrências estão relacionadas
predominantemente a fatores externos e pontuais ou se existe necessidade de
reforço estrutural no sistema que atende o município.
A
pergunta, portanto, permanece:
Campina
da Lagoa cresceu. A infraestrutura elétrica cresceu na mesma proporção?
A
resposta não deve ser baseada em especulação.
Deve
vir dos dados.